23.03.2025
Hebreus 2.1-4 (NVT)
1Portanto, precisamos prestar muita atenção às verdades que temos ouvido, para não nos desviarmos delas. 2Pois a mensagem que foi transmitida por meio de anjos permaneceu firme, e toda transgressão e desobediência recebeu o castigo merecido. 3O que nos faz pensar que escaparemos se negligenciarmos essa grande salvação, anunciada primeiramente pelo Senhor e depois transmitida a nós por aqueles que o ouviram falar? 4E Deus confirmou a mensagem por meio de sinais, maravilhas e diversos milagres, e também por dons do Espírito Santo, conforme sua vontade.
Você já ouviu falar no “efeito coelho branco”? Esse fenômeno faz referência à cena de Alice no País das Maravilhas, em que Alice segue o coelho branco e acaba se perdendo em um mundo desconhecido. Algo semelhante acontece quando você abre um aplicativo para verificar alguma coisa específica e, de repente, se vê perambulando por diversos conteúdos, vendo tudo, menos aquilo que buscava inicialmente.
Outros termos relacionados que descrevem essa atitude errante incluem:
No contexto das redes sociais e do consumo de conteúdo digital, também se fala em doomscrolling (rolagem infinita sem objetivo claro; rolagem da desgraça ou compulsiva) e economia da atenção (estratégias das plataformas para manter o usuário engajado).
Se quiser um termo mais direto para esse problema —para o seu problema! —, pode chamá-lo simplesmente de desvio digital ou perda de foco online.
Afinal, quem nunca passou por isso?
É tão fácil nos perdermos no caminho!
Pior ainda é quando nos desviamos da mensagem do evangelho, aquela que anuncia a “tão grande salvação” oferecida a nós em Jesus Cristo. Esse era o risco que corriam os destinatários da carta aos Hebreus. Esse é o risco que nós também corremos: “desviarmo-nos das verdades que temos ouvido” (cf. Hb 2.1).
Essa mensagem, pregada para a salvação do pecador, é tão essencial que Deus, em algumas ocasiões, a confirma “por meio de sinais, maravilhas e diversos milagres, e também por dons do Espírito Santo, conforme sua vontade” (Hb 2.4).
Ora, por que Deus age assim? Por que ele confirma a mensagem do evangelho “por meio de sinais, maravilhas e diversos milagres, e também por dons do Espírito Santo, conforme sua vontade” (Hb 2.4)? O apóstolo Pedro nos responde: porque o Senhor é “longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (2Pe 3.9, ARA).
Já estudamos, em cinco mensagens, como “sinais, prodígios e milagres” servem ao propósito de confirmar a mensagem da salvação. Na semana passada, iniciamos uma breve investigação sobre como os “dons do Espírito Santo” também cumprem essa finalidade: dilatar o coração para que Cristo seja recebido com fé e para que essa fé seja fortalecida. Isso é essencial para a salvação.
Hoje, daremos continuidade ao tema dos “dons do Espírito Santo”.
Iniciamos essa investigação a partir de Romanos. Leia, Romanos 1.11-12 (NAA):
11Desejo muito visitá-los, a fim de compartilhar com vocês alguma dádiva [lit., dom, χαρισμα — charisma] espiritual que os ajude a se fortalecerem. 12Quando nos encontrarmos, quero encorajá-los na fé, e também quero ser encorajado por sua fé.
A PRIMEIRA LIÇÃO que extraímos foi a seguinte: se há alguém próximo de mim cuja fé está de alguma forma ameaçada, devo parar e refletir: “Será que Deus me concedeu algum dom espiritual especialmente adequado para fortalecer essa pessoa?”
DISSEMOS ENTÃO O SEGUINTE: “A prioridade será sempre fortalecer a fé, não rotular o dom espiritual. Portanto, jamais se preocupe excessivamente em ‘dar nome’ ao seu dom; sua preocupação deve ser fortalecer a fé do próximo.”
Agora daremos um passo adiante.
O Dom Espiritual é Fruto da Fé para Gerar Fé em Cristo
Em Romanos 1.12, Paulo reformula o que disse no versículo 11, deixando clara sua intenção: “Quando nos encontrarmos, quero encorajá-los na fé, e também quero ser encorajado por sua fé.”
Nesse versículo, Paulo adota uma abordagem que poderíamos chamar de “o prazer é meu”. John Piper explica que, ao dizermos “o prazer é meu” após ajudar alguém, estamos demonstrando humildade, algo como: “Não precisa exagerar no agradecimento pelo meu sacrifício de amor por você; pois também fui abençoado ao fazer isso.”
Parece que Paulo tinha algo semelhante em mente ao escrever Romanos 1.12. Talvez ele tenha previsto que seus leitores poderiam interpretar erroneamente sua disposição de compartilhar um dom espiritual como um gesto de superioridade ou um sacrifício unilateral. Por isso, o apóstolo faz questão de esclarecer que não apenas fortalecerá/encorajará os irmãos, mas também será fortalecido/encorajado por eles.
Além disso, Paulo revela como pretende fortalecer a fé deles com seu dom espiritual (Rm 1.11): por meio da sua própria fé (Rm 1.12). Releia Romanos 1.11-12:
11Desejo muito visitá-los, a fim de compartilhar com vocês alguma dádiva [lit., dom, χαρισμα — charisma] espiritual que os ajude a se fortalecerem. 12Quando nos encontrarmos, quero encorajá-los na fé, e também quero ser encorajado por sua fé.
Observe o paralelo entre os versículos 11 e 12:
Desses paralelos, John Piper concluiu o seguinte:
Um dom espiritual é uma expressão da nossa fé que visa fortalecer a fé dos outros. O dom nasce da fé que há em nós e tem como objetivo gerar fé nas outras pessoas. Em outras palavras, um dom espiritual é uma capacidade concedida pelo Espírito Santo para expressarmos nossa fé de maneira a edificar [seja por palavras, seja por atitudes nossas… de maneira a edificar] a fé daqueles que estão à nossa volta.
Essa distinção é fundamental por um motivo: muitas pessoas possuem habilidades naturais dadas por Deus, como ensino ou administração, mesmo sem reconhecerem Deus como a fonte delas. No entanto, essas habilidades não podem ser chamadas de dons espirituais se não forem expressões de fé destinadas ao fortalecimento espiritual dos outros.
Nossa fé nas promessas de Deus é o canal pelo qual o Espírito Santo age para edificar a fé do próximo em Cristo. Entretanto, quando isso não acontece — quando uma ação não é fruto da fé, mas apenas uma habilidade natural em operação — não podemos considerá-la um dom espiritual, pois o Espírito não está fluindo “da fé para a fé”, isto é, da minha fé para a sua fé.
Essa verdade tem implicações profundas para a forma como escolhemos líderes na igreja — oficiais (pastores ou presbíteros e diáconos), professores, membros de diretoria ou de comissões, entre outros.
Não basta perguntar: “Quem tem as habilidades necessárias para desempenhar bem essa função?” Precisamos ir além e questionar:
Essas perguntas são essenciais, pois nos ajudam a discernir se a ação dessa pessoa é realmente conduzida pelo Espírito Santo: se flui de sua própria fé para gerar ou fortalecer a fé do próximo.
Agora, avancemos para Romanos 12.3-8, uma passagem que trata com um pouco mais de detalhes os dons espirituais—embora, neste contexto, sejam mencionados simplesmente como “dons”:
3Com base na graça [χαρις — charis] que recebi, dou a cada um de vocês a seguinte advertência: não se considerem melhores do que realmente são. Antes, sejam honestos em sua autoavaliação, medindo-se de acordo com a fé que Deus nos deu. […]
6Deus, em sua graça [χαρις — charis], nos concedeu diferentes dons [χαρισμα — charisma]. Portanto, se você tiver a capacidade de profetizar, faça-o de acordo com a proporção de fé que recebeu. 7Se tiver o dom de servir, sirva com dedicação. Se for mestre, ensine bem. 8Se seu dom consistir em encorajar pessoas, encoraje-as. Se for o dom de contribuir, dê com generosidade. Se for o de exercer liderança, lidere de forma responsável. E, se for o de demonstrar misericórdia, pratique-o com alegria.
O Impacto que o Dom Gera no Corpo de Cristo
A PRIMEIRA OBSERVAÇÃO a fazer, com base nesses versículos, reforça o que já dissemos anteriormente e é esta: não devemos nos preocupar excessivamente com rótulos para os dons espirituais.
Pode-se, então, concluir o seguinte: os dons espirituais não se limitam a uma lista fixa de atividades mencionadas no Novo Testamento. Assim como as necessidades humanas são incontáveis, os dons espirituais que as atendem também o são. Logo, antes de tudo, UM DOM ESPIRITUAL É qualquer capacidade concedida pelo Espírito Santo que nos permita expressar nossa fé e, assim, fortalecer a fé dos outros.
Observe os sete dons mencionados em Romanos 12.6-8: profetizar, servir, ensinar, exortar (consolar, encorajar — o mesmo termo usado em Romanos 1.12), contribuir (compartilhar), presidir (liderar, dar auxílio) e exercer misericórdia. O mais significativo sobre esses dons — exceto, talvez, os de profetizar, ensinar e presidir ou liderar — é que todos os crentes são chamados a praticá-los. Todos nós devemos exortar ou consolar, encorajar, contribuir e exercer misericórdia.
Portanto, ter um dom espiritual significa, pelo menos, duas coisas:
Qualquer virtude ou habilidade natural, quando praticada com zelo, entusiasmo e em benefício dos outros, pode ser considerada um dom espiritual. Em outras palavras, não devemos restringir os dons espirituais a uma lista rígida ou fechada. Se o Espírito Santo o capacita a realizar algo que fortalece a fé das pessoas ao seu redor, é provável que isso seja um dom espiritual. Seja consolação, exortação, contribuição, ajuda, socorro, ensino, administração, liderança ou misericórdia, o que realmente importa não é o nome que damos ao dom, mas o impacto que ele gera no Corpo de Cristo.
Dons Concedidos em Medidas Variadas
A SEGUNDA OBSERVAÇÃO a se fazer, partindo de Romanos 12.3-8, é que os dons são concedidos por Deus em medidas variadas.
Esse ponto é crucial porque, sempre que falamos sobre dons espirituais, corremos o risco de cair no orgulho — algo que certamente aconteceu na igreja de Corinto e, possivelmente, também na de Roma.
Para eliminar qualquer vestígio de orgulho, autossuficiência ou vanglória, Paulo revela uma verdade profunda: em Romanos 12.6, ele afirma que recebemos dons diferentes: “Deus, em sua graça, nos concedeu diferentes dons.” Isso significa que nossos dons não são mérito próprio, mas dádivas, presentes de Deus.
Alguém poderia argumentar: “Tudo bem, não posso me orgulhar dos dons que recebi, mas posso me orgulhar do zelo com que os uso.” Essa postura, no entanto, se assemelha à de alguém que diz: “Não posso me orgulhar de ter nascido em uma família próspera, mas posso me orgulhar do uso que faço das oportunidades que tive.”
Ambas as declarações revelam uma falha crucial: o pecado do orgulho
Lembre-se do que diz Deuteronômio 8.17-18:
17[Deus] Fez tudo isso [conduzindo-os pelo deserto] para que vocês jamais viessem a pensar: ‘Conquistei toda esta riqueza com minha própria força e capacidade’. 18Lembrem-se do SENHOR, seu Deus. É ele que lhes dá força para serem bem-sucedidos, a fim de confirmar a aliança solene que fez com seus antepassados, como hoje se vê.
O mesmo princípio se aplica aqui: não são apenas os dons que vêm de Deus, mas também a fé e o zelo necessários para utilizá-los.
Paulo enfatiza isso claramente em Romanos 12.3:
Com base na graça que recebi, dou a cada um de vocês a seguinte advertência: não se considerem melhores do que realmente são. Antes, sejam honestos em sua autoavaliação, medindo-se de acordo com a fé que Deus nos deu.
William Hendriksen comentou:
O termo fé é usado, aqui, no sentido mais comum de confiança em Deus por meio da qual um indivíduo se apossa das promessas de Deus. No presente contexto, contudo, o apóstolo não está pensando em termos quantitativos (uma grande ou pequena quantidade de fé). Ele está falando, antes, das várias formas nas quais cada indivíduo distinto pode ser uma bênção a outros e à igreja em geral, usando o dom particular com o qual, em associação com a fé, Deus o dotou. Ele está admoestando a cada um daqueles a quem se dirige a reconhecer a diversidade dos dons em meio à unidade da fé e a perguntar a si mesmo: “Como posso fazer melhor uso de meu dom para beneficiar a cada um e a todos?”
E para que ele nos deus essa fé para usar os dons?
Romanos 12.4-5 (NVT)
4Da mesma forma que nosso corpo tem vários membros e cada membro, uma função específica, 5assim é também com o corpo de Cristo. Somos membros diferentes do mesmo corpo, e todos pertencemos uns aos outros.
Hendriksen:
Aqui, em Romanos 12.4-5, Paulo enfatiza (a) a unidade orgânica do corpo (“muitos membros num só corpo”); (b) a diversidade proposital dos membros e de suas funções (“e todos esses membros não têm a mesma função”); e (c) as necessidades e benefícios mútuos desses vários membros que se acham unidos em Cristo (“…também nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo e, individualmente, membros uns dos outros”).
Aos coríntios, o apóstolo arrematou, dizendo, em 1Coríntios 15.10:
O que agora sou, porém, deve-se inteiramente à graça que Deus derramou sobre mim, e que não foi inútil. Trabalhei com mais dedicação que qualquer outro apóstolo e, no entanto, não fui eu, mas Deus que, em sua graça, operou por meu intermédio.
Deus age dessa maneira e nos adverte em 1Coríntios 1.29, 31: “Portanto, ninguém jamais se orgulhe na presença de Deus. […] Quem quiser orgulhar-se, orgulhe-se somente no Senhor.”
Poucas coisas são tão eficazes para nos manter humildes quanto reconhecer que o Espírito Santo é absolutamente soberano, concedendo-nos dons e fé para que sirvamos uns aos outros, edificando o Corpo de Cristo.
Continua na parte 3.
S.D.G. L.B.Peixoto
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Dons do Espírito Santo – Parte 2
Pr. Leandro B. Peixoto